As escolas italianas das sociedades de mútuo socorro de curitiba: instruir a infância e fortalecer a identidade étnica



Baixar 61.15 Kb.
Encontro01.08.2016
Tamanho61.15 Kb.
AS ESCOLAS ITALIANAS DAS SOCIEDADES DE MÚTUO SOCORRO DE CURITIBA: INSTRUIR A INFÂNCIA E FORTALECER A IDENTIDADE ÉTNICA.
Elaine Cátia Falcade Maschio - Universidade Federal do Paraná

elainefalcade@uol.com.br
Palavras-chave: Escolas italianas, Infância, Identidade.
Em Curitiba, a partir do final do século XIX as Sociedades Italianas de Mútuo Socorro passaram a desempenhar um papel importante na construção, celebração e manutenção do sentimento italianófilo. Sob a égide da filantropia, essas associações organizavam-se através da filiação dos sócios para a manutenção financeira na velhice e em caso de doenças impossibilitando o trabalho. Geralmente recebiam auxílio do governo italiano e eram formadas por imigrantes italianos e descendentes. Suas denominações evocavam personagens relevantes da história italiana, como príncipes, reis, rainhas, heróis da unificação.

Além disso, essas associações promoviam ações recreativas através de manifestações artísticas e culturais, competições esportivas e eventos comemorativos das datas festivas italianas. Tais manifestações concorriam para o fortalecimento do vínculo com a pátria mãe e a afirmação da identidade étnica do grupo.

Segundo Adhemar Lourenço da Silva Junior, com base nas pesquisas realizadas no Rio Grande do Sul, as sociedades de socorro mútuo constituíam-se em “associações formadas voluntariamente com o objetivo de prover auxílio financeiro a seus membros em caso de necessidade” (2004, p. 21). Essas abrangiam funções que as definiam como previdenciárias ou sindicais, para oferecer assistência aos operários e trabalhadores; ou como associações étnicas, que concebiam em suas ações meios de manutenção da identidade social do grupo.

Contudo, o fortalecimento da identidade étnica pela via destas instituições também se davam através da instrução da infância. Algumas sociedades inseridas no contexto Curitibano promoveram a manutenção de uma escola italiana para os filhos dos associados. Desse modo, o objetivo deste texto é analisar as iniciativas escolares junto as Sociedades Italianas de Mútuo Socorro em Curitiba no final do século XIX e início do século XX.

Considerando as iniciativas em prol da instrução da infância imigrante, ações que concorriam para o fortalecimento da identidade étnica italiana, busca-se compreender como essas instituições empenharam-se na organização de escolas elementares, identificando os sujeitos que fizeram parte daquele processo de escolarização, as práticas empreendidas para o fortalecimento da italianidade, os conflitos, as relações de poder e os primeiros impactos da nacionalização.

O recorte temporal abrange os anos que assistiram a criação da primeira (1883) e da última (1916) sociedade italiana em Curitiba. A partir do ano de 1916 iniciaram-se as primeiras ações de nacionalização no estado e no país, confluindo para a formação do estado-nação. As sociedades organizadas pelos estrangeiros começaram a sofrer com a fiscalização e a repressão do governo brasileiro, tendo que realizar mudanças na organização mutual.

Na tentativa de compreender as iniciativas escolares dessas instituições e sua atuação na conformação da identidade étnica, foram privilegiados documentos como: Registros Cartoriais, Estatutos das Sociedades, Jornais, Ofícios, Requerimentos, e Relatórios das autoridades do Ensino Paranaense. O diálogo historiográfico contemplou autores que tratam desde a imigração italiana, até autores que abordam a historiografia educacional brasileira, os quais contribuíram para entender o processo de imigração e escolarização no Brasil e no Paraná.

Portanto, no universo pesquisado, foram localizadas dez associações: a Societá Italiana di Mutuo Soccorso Guiusepe Garibaldi (1883), a Società Regina Margherita – braço feminino da Società Garibaldi (1895), Círculo 20 de Setembro (1896), a Società Dante Alighieri (1896), a Società Italiana di Beneficenza di Santa Felicidade (1904), a Società Rosa di Natale – para as moças filhas dos associados da Società Garibaldi (1905), a Società Italiana di Mutuo Soccorso Cristoforo Colombo (1905), a Società Operária Beneficente Internacionale di Água Verde (1905), a Societá Italiana di Mutuo Soccorso Vittorio Emanuelle III (1904) e a Società Italiana di Beneficenza Livorno Ítalo-Brasileira (1916). Dessas, quatro tinham em seu escopo o atendimento educacional da infância conflagrando o fortalecimento da identidade étnica através da instrução: a Società Italiana di Beneficenza Giuseppe Garibaldi (1883), a Società Italiana Dante Alighieri (1896), a Società di Mutuo Soccorso Vittorio Emanuelle III (1896) e a Società Italiana di Mutuo Soccorso Cristoforo Colombo (1905).



A atuação das escolas italianas no Paraná mantidas em parte pelas sociedades através dos recursos angariados dos próprios sócios e em parte pelos subsídios financeiros do governo italiano foi bastante restrita e atendeu um pequeno número de alunos, se comparadas às demais experiências semelhantes entre imigrantes italianos nos estados de São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Esses estados apresentavam uma rede de escolas italianas bem maiores que a experiência paranaense.i

A maioria das matrículas dos alunos de origem italiana no Paraná concentrava-se nas escolas italianas católicas e nas escolas públicas. Nas escolas italianas católicas, ensinava-se em idioma italiano e, conteúdos que se reportavam a Itália como a História e a Geografia daquele país. De modo geral, apresentavam uma freqüência superior a 100 alunos. Ao contrário, a matrícula nas escolas italianas mantidas pelas sociedades de mútuo socorro, dificilmente ultrapassava o número de 80 alunos.

Mesmo com pouca freqüência, se comparadas às outras iniciativas de escolarização da infância imigrante, as escolas italianas mantidas no interior das sociedades de mutuo socorro apresentaram-se como instituições importantes para a escolarização dos filhos de imigrantes italianos e para o fortalecimento da identidade étnica do grupo, como veremos a frente.
Instruindo a infância, afirmando a identidade étnica.
A Società Italiana di Beneficenza Giuseppe Garibaldi, composta quase que exclusivamente por políticos, intelectuais, comerciantes e artistas residentes no centro urbano de Curitiba, foi fundada em 1 de julho de 1883. As finalidades desta sociedade estavam assentadas nas celebrações dos dias festivos italianos, no auxílio mútuo dos sócios e na instrução da infância. Acolhia sócios de nacionalidade italiana, podendo ser homens, mulheres e crianças, conforme informava o seu primeiro estatuto:
Articolo 3º - Scopo della società e la beneficenza materiale, morale Ed intelettuale e por questo essa tende a procacciare alle persone che la compognono, um sussidio in caso d’impotenza al lavoro, per malattia e vecchiaja, e quindi promuove com ogni mezzo la istruzione, la morale ed il progresso;

Articolo 4º - Essa accoglie nel suo seno uomini donne e fanciulli italiani, sotto i patti d’ammissione comuni a tutti i soci di qualunque condizione e stato (STATUTO, 1884, p.2).ii


Tendo esse caráter abrangente de formação e atuação, essa sociedade teria sido uma das mais expressivas no que se refere à manutenção dos sentimentos italianófilos. Tanto é assim, que como sua sede localizava-se no Alto São Francisco, na região mais central da cidade de Curitiba, as festividades italianas envolviam toda a comunidade local, incluindo os nacionais.

Com relação a instrução da infância através de uma escola italiana, cumpre notar que desde as primeiras manifestações da sociedade (em reuniões, notas em jornais, discursos), os sócios evidenciavam o interesse pela abertura e manutenção de uma escola italiana. Na verdade, a intenção de criar uma escola foi utilizada também como justificativa para galgar do governo paranaense o terreno - cedido pela Câmara Municipal de Curitiba - e os meios para a construção do edifício que abrigaria a sede da sociedade.

No lançamento da pedra fundamental da sede da associação, no dia 30 de julho de 1887, em discurso o então presidente da sociedade o italiano Giovanni Corghi pronunciava que o edifício que seria construído, além de abrigar a sede da sociedade serviria para abrigar uma escola ítalo-brasileira denominada Scuola Regina Margherita. De acordo com registros encontrados, essa seria a primeira escola étnica italiana em Curitiba que, contudo, aceitaria a matrícula de crianças de outras nacionalidades.

Se por um lado a intenção de criar uma escola italiana junto aquela sociedade configurava uma estratégia de promoção do fortalecimento étnico, por outro, provocou reação negativas por parte dos missionários italianos católicos. Especialmente para o padre Scalabriniano Pietro Colbachini, que considerava a iniciativa escolar daquela instituição uma afronta aos valores cristãos, por tratar aquela sociedade uma Loja Maçônica.

Ainda na ocasião do lançamento da pedra fundamental, discursou também Ernesto Guaita, agente consular italiano que mantinha desavenças antigas com o Padre Pietro Colbachini. Em seu discurso, rebatia as atitudes do missionário em difamar a iniciativa escolar daquela sociedade.
Não posso deixar nesta circunstância de deplorar como haja de passagem sobre o horizonte de Curitiba uma nefasta ave notívaga, que, com perfídia Jesuítica abusando da influência que exerce sobre a ignorância, procura atravessar o desenvolvimento da Sociedade Garibaldi, acusando-a de maçônica e afastando dela os que mais precisam de instrução (GAZETA PARANAENSE, 1887, p. 4).
Ainda que em nenhum documento tenha sido encontrada a vinculação daquela Sociedade à Maçonaria naquele período, alguns estudos, entre eles os de Redovido Rizzardo (1974, p. 238), afirmam que a sociedade foi criada também com o intuito de abrigar uma Loja Maçônica. Nesse caso, os ideais daquela sociedade chocavam-se com a vertente mais conservadora da Igreja católica: o ultramontanismo. O Padre Pietro Colbachini denominava Ernesto Guaita de maçônico, liberal, anarquista. Essas designações pareciam representar um único significado: tudo o que era contrário a fé cristã.

De outro modo, o missionário exercia sobre a maioria dos colonos italianos que residiam nas colônias uma relação de confiança e prestígio. Como protesto às declarações públicas de Ernesto Guaita, alguns imigrantes das colônias italianas dos arredores de Curitiba que recebiam assistência religiosa do missionário Pietro Colbachini obtiveram assinaturas dos demais colonos a fim de rechaçar o agente consular.

Diziam:
Os abaixo assignados immigrantes italianos estabelecidos nos colônia dos municípios da Capital, São José dos Pinhaes e Campo Largo nesta Província, tendo notícia de haver o seu compatriota o Snr. Ernesto Guaita feito allusões offensivas e manifestamente injustas e apaixonadas ao muito respeitável missionário apostólico, o Snr. Padre Pietro Colbachini, em um discurso que pronunciou no dia 30 de julho passado, por ocasião de ser lançada a primeira pedra do edifício da escola italiana, cuja construção promove nesta cidade a sociedade Giuseppe Garibaldi, vem cumprir o dever de protestar contra tão irregular procedimento do dito compatriota, que de nenhum modo exprime os sentimentos dos abaixo assignados, que estão acostumados a respeitar o padre Colbachini (GAZETA PARANAENSE, 1987, p. 2).
Os colonos repudiavam as ofensas contra o missionário, concluindo o documento dizendo que não se sentiam representados pelo agente consular Ernesto Guaita. Dias depois, um contraprotesto foi publicado no mesmo jornal no dia 21 de agosto de 1887 encabeçado por alguns imigrantes dizendo que foram enganados ao assinar as listas contrárias a Ernesto Guaita. Diziam que quem havia recolhido as assinaturas, alegou que seria para declarar o pertencimento a fé católica, enquanto que o real motivo não foi declarado.
Apezar de algumas centenas de assignaturas para maior parte de analphabetos, estorquidas com miserável arte de engano, nunca possam representar os sentimentos de uma colônia, apezar de que o abaixo-assignado publicado no nº. 178 da “Gazeta Paranaense” não tenha valor algum se não contra os mesmos promotores visto nelle existirem assignaturas obtidas na sobredita forma e alem disso algumas dellas ser de subditos não mais italianos (pelos quaes torna-se ridículo um protesto contra o agente consular da Itália) os abaixo assignados todos residentes nesta capital, protestão indignados contra tal, não sabe-se mais estúpido ou malvado proceder, e aproveitam a occasião para publicamente, francamente e espontaneamente declarar que não só se honrão de ter o sr. Engenheiro Ernesto Guaita como agente consular e representante do reinado do rei Umberto, mas bem assim dividem as opiniões e os sentimentos delle e com elle deplorão as causas de tanta desunião entre os próprios patriotas (GAZETA PARANAENSE, 1887, p. 3).
O documento trazia predominantemente nomes de imigrantes residentes no centro de Curitiba, sendo a maioria deles sócios da Sociedade Garibaldi. Interessante é notar a referência feita a Ernesto Guaita como representante do rei Umberto e a idéia de pertencimento étnico e sentimento de italianidade, quando se referiam a “desunião entre os próprios patriotas”. Entre os colonos italianos residentes nas áreas rurais esse reconhecimento patriótico não era evidente, pois o símbolo de pertença estaria vinculado a declaração do ser católico.

Em uma carta enviada a Roma no dia 24 de maio de 1888 o missionário relatava o conflito com Ernesto Guaita:


Entre os nossos existem aqueles que aqui foram trazidos pelo demônio. Destes sofri e sofro perseguições de toda espécie. Combati e venci o agente consular Sr. Ernesto Guaita que num discurso público designava-me como ave noctívaga perigosa para Curitiba. Saíram diversos artigos no jornal, e por fim impôs-se a Guaita de deixar, e mais tarde perder o cargo oficial que ocupava. Agora aqui e ali existem aqueles que me querem morto, ou porque lhes tirei a concubina, ou porque avisei a polícia das perturbações que traziam a cerros colonos. Temo apenas a Deus, e prossigo no mesmo caminho (AZZI, 1987, p. 236).
Ernesto Guaita deixou o cargo de agente consular, no entanto não foi possível saber se renunciou ou foi obrigado a fazê-lo. A Scuola Regina Margherita, não foi fechada. Ao contrário, entrou em funcionamento, ainda que com poucos alunos freqüentando, cerca de 30. Ou seja, somente os filhos de imigrantes italianos do centro da capital.

Segundo os registros, no ano de 1896, o cônsul Italiano Rogeri de Vilanova subsidiava em Curitiba a única escola italiana que havia naquele período junto à Società Giuseppe Garibaldi localizada em Curitiba, porém não informava o número de alunos que a freqüentava (ITÁLIA, 1896, p. 6). Também não foi possível localizar até que data a escola permaneceu aberta, entretanto de acordo com alguns documentos, acredita-se que a partir de 1915 está tenha deixado de funcionar em função das mudanças ocorridas na organização do ensino no Paraná devido a aprovação do primeiro Código de Ensino do Estado naquele ano, o qual estabeleceu critérios mais rígidos quanto a manutenção de escolas étnicas.

No que se refere a criação da escola Dante Alighieri, ou Centro di Istruzione Dante Alighieri, os documentos não são concordantes. Alguns apontam para o ano de 1896 a partir da contribuição do Régio Cônsul Rogeri de Villanova. Outros indicam mais tarde.

A Scuola Italiana Dante Alighieri funcionava até o início de 1900 em uma casa localizada em frente a Praça Santos Andrade, na região central de Curitiba - nas proximidades do local onde alguns anos mais tarde foi construído o prédio da Universidade do Paraná. Não se sabe ao certo quando, mas as aulas foram transferidas para o prédio da Sociedade Garibaldi e depois para uma sede própria em frente a Praça Zacarias (também na região central da cidade).

Em 26 de novembro de 1900, a diretoria da Sociedade Garibaldi enviava um ofício convidando o Diretor da Instrução Pública para assistir aos exames finais das escolas italianas da Dante Alighieri e da Sociedade Garibaldi.
Tenho a subida honra de convidar a V. Sª Illm. para Domingo 2 do p. v. mez de Dezembro as 8 horas da manhã assistir aos exames de classe dos alumnos da União das Escolas Italianas Dante Alighieri e Giuseppe Garibaldi, nos locais desta última no Alto São Francisco desta cidade (OFÍCIO, 1900, p. 194).
Assistiu aos exames das escolas italianas o Inspetor Escolar da Capital Sebastião Paraná, conforme informava em seu relatório:
Exames na Escola Italiana dividida em duas seções: Dante Alighieri e Giuseppe Garibaldi. Todos os alumnos, em número de 66 prestaram exame parcial.

Esta escola é subvencionada pelo Governo do Estado e pelo Governo Italiano, que exige que seja ensinada a língua portugueza (OFÍCIO, 1900, p. 254).


Além de informar que as duas escolas funcionavam no mesmo prédio, a ponto de serem tratadas como uma única escola italiana, o documento põe em evidencia a exigência quanto o ensino da língua vernácula. Alguns meses antes dos exames, em 16 de julho de 1900, o Diretor da Instrução Pública havia solicitado ao Inspetor Escolar Leôncio Correia para informar em ofício, se as escolas subvencionadas alemãs e italianas da capital ministravam as aulas de português. Em reposta, no dia 25 de julho, o Inspetor Escolar dizia:
Em resposta ao vosso offício reservado do 16 do corrente cumpre-me communicar-vos que, na communa allemã, o ensino da língua portugueza é convenientemente ministrado, como affirma o attestado do Sr. Inspector Escolar d’esta capital, e na Escola Dante Alighieri lecciona o portuguez o professor de italiano Sr. Luiz Pivatto. A Directoria da Dante Alighieri, entretanto espera em breve collocar à frente da cadeira da língua vernácula um cidadão brasileiro que se tenha entre nós recomendado (PARANÁ, 1900, p. 187).
O não ensino da língua vernácula nas escolas italianas de Curitiba pode ser constatado nestes fragmentos. Entretanto, o não cumprimento daquela exigência naquele momento ainda não passava de uma advertência. Certamente, alguns italianos, principalmente os professores dominavam parcialmente a língua portuguesa, o que não garantia um ensino de grande relevância. Ao contrário se fosse ministrado por professores nacionais, o ensino poderia ser mais proveitoso.

As iniciativas em prol da afirmação étnica empreendida pelas sociedades Giuseppe Garibaldi e Dante Alighieri não se restringiam ao universo particular destas instituições. Nas festividades, os alunos das duas escolas eram convocados a participar das comemorações. No ano de 1904, em uma das celebrações festivas italianas promovidas pelos imigrantes italianos do centro de Curitiba, na data de 20 de setembro em que se comemorava a tomada de Roma pelas tropas de Garibaldi no processo da unificação italiana, foi registrada a presença dos alunos da escola Dante Alighieri além de outras manifestações da italianidade pelo centro da cidade.


Com extraordinária animação effectuaram-se hontem as festas promovidas pela colônia italiana em commemoração ao acontecimento de mais elevada significação patriótica para os filhos da bella Itália – a Confederação dos pequenos estados peninsulares n’um homogêneo e forte corpo nacional.

Deu começo ao dia festivo a rcepção oficial, às 11 horas do dia, no Consulado Italiano, à qual compareceram os cônsules, muitos membros da colônia italiana e os alumnos da Escola Dante Alighieri, acompanhados pelo professor Miguel Grassani, tendo tocado no jardim da residência consular, durante a cerimônia, uma banda de musica. [...] Durante o dia estiveram embandeirados o consulado d’Itália, o Grande Hotel, as sedes sociais e muitos estabelecimentos commerciaes italianos (A REPÚBLICA, 1904, p. 1).


Buscando envolver toda a cidade, a imersão de Curitiba e de sua população na cultura italiana colocava em evidência o interesse fundamental de disseminar e fortalecer a identidade étnica, principalmente entre os compatriotas emigrados.

Afora o centro da capital, uma outra associação italiana foi criada na colônia de Alfredo Chaves localizada a 25 quilômetros de Curitiba em 1 de outubro de 1905: a Società Italiana di Mutuo Soccorso Cristoforo Colombo. De acordo com o seu estatuto datado do ano de 1909, além da instrução, uma das principais finalidades era a assistência médica. Conforme os artigos 11º e 85º do estatuto os sócios tinham o direito de receber subsídios para o tratamento de saúde em caso de acidente, impossibilidade de trabalho ou tratamento de saúde fora da colônia. Para isso, cada sócio deveria contribuir mensalmente com uma quantia de 1$000 reis para ter o direito de desfrutar dos benefícios garantidos pela associação.

Segundo ainda os seus estatutos, o objetivo da instituição era também a promoção do bem estar, da moralidade e da instrução.
Art. 1º La Società Generale di Mutuo Soccorso Cristoforo Colombo, di Villa Colombo, sotto il patrocínio di S. Giusseppe, istituita il 1 – ottobre – 1905, há per indirizzo la fratellanza ed il mutuo soccorso dei soci, tenendo a promuovere il benessere, la moralitá e l’intruzione (STATUTO, 1909, p. 1).iii
Ainda que o estatuto pouco orientasse sobre a manutenção de uma escola étnica junto àquela sociedade, segundo outros registros, as aulas deveriam ser ministradas em língua italiana. Porém, não foi localizado nenhum documento que trouxesse informações sobre o ano em que essa escola foi fundada. As primeiras informações sobre o funcionamento desta escola datavam do ano de 1909, quando o imigrante italiano João Batista Lovato, que além de ter atuado na vida política da colônia Alfredo Chaves, era membro daquela associação e foi professor da escola mantida por esta.

Em requerimento do dia 24 de novembro do ano de 1910, comunicou ao governo paranaense o funcionamento de uma escola particular italiana nos “arrabaldes da vila”. A escola denominava-se Santo Antonio, as aulas eram ministradas em idioma italiano. Conforme a lista de freqüência, era permitida somente a freqüência de meninos, filhos dos associados, indivíduos de nacionalidade ou descendência italiana. Não era permitida a freqüência de meninas, nem mesmo de mulheres. De acordo com Adhemar Lourenço da Silva Junior (2004, p. 241) uma das características das mutuais era a exclusividade da participação masculina: “o mundo das mutuais é predominantemente um mundo masculino. De um modo geral, as mulheres são admitidas apenas na condição de beneficiárias ou, de qualquer modo, na condição de sócios sem direitos políticos”.

Na lista de frequência constava então uma matrícula de 42 meninos, todos de sobrenomes italianos com idades que variavam de seis a 14 anos. Dividiam-se entre 26 alunos pertencentes a 1ª classe (nível de ensino), 11 na 2ª classe e cinco na 3ª classe (PARANÁ, 1910, p. 27).

O professor justificava a necessidade da subvenção alegando que a legislação previa a garantia de subvenção para cidadãos que lecionassem para no mínimo vinte alunos. No seu caso, o número de alunos já era superior. Entretanto, o pedido de subvenção foi negado, pois o ensino não era ministrado em língua portuguesa.


Diz João Batista Lovato, que mantendo uma escola particular italiana n’um dos arrabaldes da Villa Colombo, com a freqüência de quarenta e dous alunos, como fazem certos dos documentos juntos, vem respeitosamente pedir a V. Ex. que se digne de conceder-lhe a subvenção mensal de sessenta mil réis, de acordo com a lei vigente, obrigando-se a lecionar vinte alumnos gratuitamente (PARANÁ, 1910, p. 25).
A justificativa pelo pedido de subvenção para aquela escola italiana poderia advir do corte dos subsídios concedidos pelo governo italiano. Porém, um novo documento informava que no ano de 1917 o professor italiano João Batista Lovato adquiriu um terreno próximo à Igreja Matriz e em conjunto com os pais dos seus alunos e outros colonos, construíram um prédio escolar composto de três pavimentos, com a capacidade para acomodar 200 crianças. A escola tornou-se confessional católica e continuando a denominar-se Escola Santo Antonio, passou a ser dirigida pelas Suore Apostole del Sacro Cuore di Gesu.

Assim, a atitude de João Batista Lovato e dos demais colonos demonstrava que a necessidade de subvenção financeira aos alunos pobres que freqüentavam a escola étnica italiana não era preponderante. O que estava em jogo era a manutenção da instituição escolar para o cumprimento de suas funções: o ensino da língua italiana e a afirmação étnica.

Nos primeiros anos da década de 1910, as iniciativas nacionalistas, ainda que em pequena proporção, foram suficientes para desconfigurar aquela associação mutual étnica. A sociedade não foi fechada, mas não mantinha mais uma escola. De acordo com o registro de título efetuado no ano de 1916, a Società Italiana di Mútuo Soccorso Christoforo Colombo mantinha ainda: “a confraternização dos sócios, tendo o bem estar, a moralidade e a instrução” (LIVRO DE REGISTROS, 1918, p. 12). Porém, perdeu o caráter étnico passando a assumir finalidades confessionais católicas.
Em assembléias de 30 de setembro a 31 de dezembro de 1917 e 31 de março a 21 de julho de 1918, da Società Italiana di Mútuo Soccorso “Christoforo Colombo”, com sede na Villa Colombo, deste Estado, foram feitas várias modificações nos respectivos estatutos. A sua denominação passou a ser “Sociedade Catholica Italiana de Mútuo Soccorso Christoforo Colombo”, e os fins sob o patrocínio de São José, terá ella por escopo obter o progresso moral e material dos sócios, mantendo nos respectivos corações a fé christã e o amor a pátria (LIVRO DE REGISTROS, 1918, p. 86).
A justificativa para a mudança de nomenclatura e da sua finalidade - de sociedade italiana para sociedade religiosa católica estaria vinculada ao processo de nacionalização preventiva instaurado no país a partir da Primeira Guerra Mundial, embora ainda como iniciativa incipiente, uma vez que este processo de nacionalização veio a culminar somente na década de 1930.

A preocupação em nacionalizar a população estrangeira proibindo a disseminação da língua e da cultura do país de origem era fortemente visível. Em relatório datado do ano de 1924 o Inspetor Geral do Ensino César Prieto Martinez, dizia não haver mais porque recear da escola italiana, pois as que ainda existiam eram freqüentadas com o intuito de aprender o catecismo e a prática religiosa (PARANÁ, 1924, p. 81).

Na visão dos nacionalistas, a catolicidade ainda poderia ser aceitável em detrimento a etnicidade. E no caso dos italianos, a italianidade foi suprimida pela catolicidade talvez sem muitos esforços. Para o imigrante camponês proveniente da região norte da Itália, a religião poderia ter peso maior na relação identitária. Contudo, o ensino do idioma italiano foi mantido. Assim, a substituição da função e a mudança de nomenclatura da sociedade italiana para sociedade católica possivelmente resultante do movimento de nacionalização preventiva, não impediram empreender esforços para a preservação do sentimento étnico.

Por fim, a última associação contemplada neste texto a prever em sua organização uma escola que concorresse para a manutenção da identidade étnica, foi a Società Vitório Emanuelle III. Localizada nas proximidades da capital, na região denominada Ahú, esta instituição tinha como finalidade a promoção da assistência, instrução e recreação dos associados. Ao contrário das demais sociedades italianas citadas, esta admitia como associados somente homens, de qualquer nacionalidade.


Art. 3º - A Sociedade o seu alto fim se propõe:

§ 1º O mutuo socorro entre os sócios.

§ 2º A instrução e a educação da Infância.

§ 3º Dar aos associados um subsídio em caso de invalidez.

§ 4º Procurar para os associados uma localidade de recreio.

Art. 4º - Esta sociedade aceita no seu seio, moços e adultos de qualquer nacionalidade à condição de conformar-se às leis do presente Estatuto (ESTATUTOS, 1904, p.3).


Pouco foi possível localizar sobre a existência e o funcionamento de uma escola elementar vinculada a esta associação. De modo geral, as aulas nas escolas italianas junto as sociedades de socorro mutuo caracterizavam-se pelo ensino da língua italiana por um professor italiano habilitado; pela presença de alunos (principalmente meninos) filhos de imigrantes italianos. Com uma estrutura física boa, livros e materiais escolares, como mapas geográficos e quadros, vinham da Itália por intermédio do Consulado. Este também repassava o auxílio pecuniário enviado pelo governo italiano, bem como, fiscalizava o funcionamento das escolas.

Neste caso, parece-nos que a escola mantida pela sociedade Vittorio Emanuelle III não fugia a regra. Sustenta-se a hipótese de que ela denominava-se Principessa Jolanda. Conforme o Annuario delle scuole italiane all’estero datado do ano de 1904, em Curitiba havia além da Scuola Regina Margherita junto a Società Giuseppe Garibaldi, mais duas escolas italianas: uma junto a Società Dante Alighieri e outra denominada Principessa Jolanda (ITÁLIA, 1904, p. 12). Tendo em vista que em Curitiba apenas as sociedades Garibaldi, Dante Alighieri e Vitório Emanuelle III previam em seu escopo a manutenção de uma escola elementar italiana, acredita-se que essa seja aquela escola mantida por esta última associação.

O mesmo documento apresenta outro indício que ajuda a firmar essa hipótese. O Anuário informava ainda que a escola italiana Principessa Jolanda apresentava um registro de matrícula de 31 alunos, somente meninos, portanto, era uma escola italiana masculina. Cumpre nota, destacar que a Società Vittorio Emanuelle III por sua vez, admitia, conforme os seus Estatutos, somente indivíduos do sexo masculino. Ademais, até momento da escrita deste texto não foi possível localizar outros indícios que esclareçam melhor o funcionamento desta escola.
Considerações finais
As sociedades de mutuo socorro eram associações muito comuns nas regiões de colonização européia. Ainda que com pouca abrangência junto a comunidade italiana de Curitiba, essas associações desempenharam um papel importante no auxílio dos seus sócios, mais principalmente na afirmação da identidade étnica. Com objetivos claros, a escola configurou-se como um instrumento importante dentro do projeto de manutenção e disseminação dos sentimentos italianófilos.

De modo geral, seus membros e seus ideários estiveram ligados a interesses políticos italianos, principalmente aos do primeiro ministro italiano Francesco Crispi, que pretendia desenvolver a nação italiana, afirmando a identidade étnica e o sentimento de pertença dos indivíduos emigrados, bem como, fortalecendo o comércio exterior. Assim, os ideais disseminados nestas escolas chocavam-se com os valores defendidos pela vertente conservadora da Igreja Católica, oposta a política de formação do estado nacional italiano.

Portanto, mesmo recebendo apoio financeiro do governo italiano, as escolas mantidas pelas associações contaram com uma baixa freqüência e tiveram um funcionamento efêmero, se comparados com as demais iniciativas escolares nas regiões de colonização italiana. Tanto pela pouca adesão das famílias italianas e pelo pouco interesse em enviar seus filhos a essas escolas, como pela pressão dos missionários católicos que se posicionavam contra o ensino proposto por elas, aconselhando as famílias a enviar seus filhos às escolas italianas católicas.

Além desses, as primeiras iniciativas de nacionalização do ensino no Paraná a partir de 1915 também concorreram para o desmantelamento destas escolas. Diante das exigências nacionalistas, as sociedades de mutuo socorro tiveram que realizar modificações na sua organização mutual para poderem dar continuidade as suas atividades, desconfigurando pouco a pouco o projeto o seu projeto original.

Muito pouco restou sobre elas, principalmente sobre suas escolas. Nas décadas de 1930 e 40, em plena política de nacionalização do Estado Novo, sedes e mobiliários foram tomados, arquivos foram destruídos, tornando quase que inexistente as informações sobre o funcionamento e sobre as atividades desenvolvidas.
Fontes
A República, 1904

Diário da Tarde, 1899.

ITÁLIA. Annuario delle scuole italiane all’estero governative e sussidiate. Roma: Ministero degli affari esteri, 1896, 1904.



Gazeta Paranaense, 1887.

Livro de Registro de Títulos. Curitiba, 1916.

PARANÁ. Relatório apresentado ao Exmo. Sr. Dr. Secretario Geral de Estado pelo Professor Cesar Prieto Martinez Inspetor Geral do Ensino. Typ. Da Penitenciária do Estado: Curitiba, 1924.

__________. Requerimento, 1900, p. 69.

__________. Ofício, 1900, p. 187.

__________. Ofício, 1900, p. 194.

__________. Ofício, 1900, p. 254.

__________. Requerimento, 1910, p. 25-27.



Statuto Definitivo da Società Italiana di Mutuo Soccorso Cristoforo Colombo, 1909.

Statuto della Società Giuseppe Garibaldi di beneficenza fra italiani dimoranti nel Paraná, 1884.

Estatuto da Società Italiana di Mutuo Soccorso Vittorio Emanuelle III, 1904.
Referências

AZZI, Riolando. A igreja e os migrantes. São Paulo: Paulinas, v.I, 1987.


DALLABRIDA, Norberto. Mosaico de escolas: modos de educação em Santa Catarina na Primeira República. Florianópolis: Cidade Futura, 2003
____________. Escolas Dante Alighieri: resistência e italianidade. In: RADIN, José Carlos (org.). Cultura e identidade italiana no Brasil: algumas abordagens. Joaçaba: Unoesc, 2005;
KREUTZ, Lucio. Identidade étnica e processo escolar. In: XXV Encontro anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais – ANPOCS. Caxambu, 1998. p. 3.
LUCHESE, Terciane Ângela. A escolarização entre imigrantes da Região Colonial Italiana do RS – 1875 a 1930. Tese de Doutorado. UNISINOS. São Leopoldo, 2007.
MASCHIO, Elaine Cátia Falcade Maschio. A constituição do processo de escolarização primária no município de Colombo (1882-1912). Dissertação de Mestrado. UFPR. Curitiba, 2005.
MIMESSE, Eliane. A educação e os imigrantes italianos: da escola de Primeiras Letras ao Grupo Escolar. 2. ed. São Paulo: Iglu, 2010.
OTTO, Clarícia. Catolicidades e Italianidades: tramas e poder em Santa Catarina (1875-1930). Florianópolis: Insular, 2006.
RIZZARDO, Redovino. João Baptista Scalabrini: profeta da Igreja peregrina. Petrópolis: Vozes, 1974.
SILVA JR, Adhemar Lourenço da. As sociedades de socorros mútuos: estratégias privadas e públicas (estudo centrado no Rio Grande do Sul–Brasil, 1854-1940) Tese de doutoramento. Porto Alegre: PUCRS, 2004.
TRENTO, Ângelo. Do outro lado do Atlântico: um século de imigração italiana no Brasil. São Paulo: Nobel, 1989.


i Ver: TRENTO, Ângelo. Do outro lado do Atlântico: um século de imigração italiana no Brasil. São Paulo: Nobel, 1989.

ii Artigo 3º- O objetivo da sociedade é a beneficência material, moral e intelectual e por isso tende a conseguir para as pessoas que a compõe, um subsídio em caso de impotência do trabalho, por motivo de doença ou velhice, e então promove com cada meio a instrução, a moralidade e o progresso.

Artigo 4º-Essa acolhe em seu seio homens, mulheres e crianças italianas, sob os termos de admissão comum a todos os sócios de qualquer condição e estado (Tradução livre).



iii A Sociedade Geral de Mutuo Socorro Cristoforo Colombo, da Vila Colombo, sobre o patrocínio de São José, instituída em 1 de outubro de 1905, tem por finalidade a confraternização e o mutuo socorro dos sócios, promovendo o bem estar, a moralidade e a instrução (Tradução livre).


©www.principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal